Em SP, 250 mil vozes avisam Bolsonaro: a educação pública pertence ao povo

Maio de 1968. O Brasil entra em seu quarto ano sob o comando de um governo autoritário, regido pelas forças mais cruéis da repressão. Seus principais inimigos? Os estudantes que não aceitavam calados a iminente escalada de violência e saíram às ruas e para mostrar que nenhum inimigo está acima da mobilização popular.

Maio de 2019. Mudam-se os personagens. Mudam-se as causas. Mudam-se as gerações. Mas novamente são eles, os estudantes, os autores da resposta mais aguda e convincente ao governo que cultiva declarada adoração ao regime militar. O que o povo mostrou a Jair Bolsonaro neste emblemático dia 15 é que, desta vez, a história não irá se repetir como nos anos de chumbo. E, para usar um dos gritos proclamados pelos protagonistas desta data, “nenhum direito a menos” será aceito a partir de agora.

Ainda que uns poucos desinformados tenham tentado deslegitimar o ato – um deles o próprio presidente – o que se viu na Avenida Paulista fala por si só: os cortes anunciados na educação pública custarão mais caro do que os bolsonaristas imaginavam. Eram mais de 250 mil pessoas. Isso mesmo. 250 mil pessoas vindas de todas as partes do estado e que não aceitaram ser chamadas de idiotas por quem tinha que zelar pelo futuro de cada uma delas.

Presente no ato, o ex-ministro da Educação Fernando Haddad sabe exatamente o que é pensar no futuro ao ser um dos grandes responsáveis pela revolução no ensino público do país. “Temos hoje mais de um milhão de pessoas nas ruas pela educação no país e ele (Bolsonaro) está no Texas, a pátria que ele escolheu servir”, criticou, para logo em seguida fazer jus a um dos patronos do pensamento crítico brasileiro: Paulo Freire. “Educação tem que voltar a ser prioridade como já foi um dia (…) Nós vamos educar Bolsonaro. Viva São Paulo. Viva a Educação. Viva Paulo Freire”.

Futuro que Laura Marcelly Morais, que acabou de terminar o Ensino Médio, teme nunca alcançar. “Eu estou aqui porque eu sempre sonhei em fazer uma faculdade e não sei se vou conseguir com este governo. Antes, eu tinha certeza que poderia estudar. Agora tenho medo de não conseguir. Mas vou lutar até o fim para conseguir entrar numa universidade”, revela a moradora de Embu das Artes.

Pelas escolas. Pela Periferia.

Na esquina da Avenida Paulista com a Brigadeiro, uma discreta senhora observava com os olhos atônitos o caminhar ininterrupto dos estudantes. Estava só, não pertencia a nenhum grupo ou movimento popular, mas fez questão de enfrentar quase duas horas de ônibus para participar do ato.

“Eu estou impressionada com a mobilização. Tem muito mais gente do que eu imaginava e isto é maravilhoso. Eu não conheço ninguém aqui, mas sei que tem muita gente que veio pela mesma razão do que eu: para lutar pela educação pública”, conta a professora Marcia Castro, que vive e trabalha em Cidade Tiradentes, distrito paulistano que ainda carece de infraestrutura básica e sofre com a falta de escolas.

Para Marcia, estar ali é mais do que uma obrigação pessoal. “É por toda a comunidade. É claro que eu estou lutando pela minha categoria. Mas estou pensando nos meus filhos, nos meus netos e em todas as crianças que um dia sonharão em estudar como eu sonhei no passado. Minha luta é pelo futuro”.

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